- Vaca! Vaca! Vaca! Gritava Bernardo para provocar o irmão a repetir. Rodrigo
ainda falava poucas palavras, entre as quais “vaca”, que significava quase tudo
ao seu redor, imaginário ou real. Claro, o irmão movia céu e terra para ouvi-lo
dizer vaca e depois ria sem parar. O trânsito estava lento, o calor era
sufocante, estávamos cansados... -Vaca! Vaca! Vaca! - Bernardo, tá bom... Pare de gritar vaca, por favor! - Vaca! Vaca! Vaca! Buzina, suor, cansaço. -Vaca! Vaca! Vaca! - Bernardo, se eu ouvir mais uma vez você dizer vaca, vou
parar o carro e te colocar de castigo! - Vaca! Vaca! Vaca! - Bernardo! Silêncio. - Até que enfim! Pensei. Havia, porém, um cochicho qualquer no banco de trás. Olho
pelo espelho e vejo lábios mexendo-se. Esgotado e impaciente, não acreditei.
Dizia vaca? Teria coragem? E fecho os vidros da porta, e abaixo o volume do rádio,
e diminuo a velocidade do carro, e preparo-me, sem perceber, para esmaga-lo com
toda a fúria de pai desafiado: - Borboleta, borboleta, borboleta... Sussurrando. Buzina, suor, cansaço e borboleta, dita bem baixinho.
Bernardo e Rodrigo de Andrade Amariz são filhos de Andrea e Michel. Bernardo nasceu em Brasília (Brasil) e Rodrigo em Montevidéu (Uruguai). Atualmente vivem no Uruguai com seus pais e cachorras - Leca, Tita e Vésper. São primos de Ana Beatriz (Bia), Júlia (Zúlia), Maria Luísa (Malu), Ana Cecília e Carolina. Bernardo nasceu em 2007 e Rodrigo em 2010.